Resenha: Quarto de Despejo - Carolina Maria de Jesus

15 outubro 2020



Edição: 4
Editora: Francisco Alves
ISBN: 9780451529107
Ano: 1993
Páginas: 173
Sinopse: No livro, Carolina Maria de Jesus, uma favelada, escreve um diário narrando o seu dia a dia nas comunidades pobres da cidade de São Paulo. Em sua narrativa, Carolina descreve a dor, o sofrimento, a fome e as angústias dos favelados. Seu texto é considerado um dos marcos da escrita feminina no Brasil. Quarto de Despejo foi traduzido para mais de treze idiomas. O diário descreve as vivências da autora no período de 1955 a 1960.


Mais um livro que leio graças ao Piquenique Literário. No nosso próximo encontro virtual, dia 25/10, vamos debater essa obra que, mesmo tendo sido publicada em 1960, trás em seu enredo a realidade atual de forma crua e indigesta.
"O Brasil precisa ser dirigido por alguém que já passou fome. A fome também é professora."
Carolina Maria de Jesus além da autora também é a protagonista deste livro. Quarto de Despejo é seu diário, aqui, ela nos conta como é morar em uma favela, sentir fome todos os dias e o pior de tudo: não ter comida para seus 3 filhos. Carolina nos mostra o dia a dia de uma favela, seus moradores, a violência, racismo e pobreza extrema. 
Carolina foi catadora de papel por muito tempo, nessas páginas, acompanhamos seu desespero em conseguir dinheiro para não passar fome, as amizades que fez e que a ajudavam nos dias de mais dificuldade.
"Quando estou na cidade tenho a impressão que estou na sala de visita com seus lustres de cristais, seus tapetes de viludos, almofadas de sitim. E quando estou na favela tenho a impressão que sou um objeto fora de uso, digno de estar num quarto de despejo."
Quarto de Despejo é cruel, forte, dolorido, tenso, mas necessário. É um livro que todos os brasileiros deveriam ler. A semelhança com a realidade é verdadeira, até a parte política. O descontentamento da autora com a cena política da época não deixa a desejar nos dias de hoje. A autora nos trás algo diferente, uma narrativa envolvente e emocionante sobre o dia a dia na favela do Canindé. Coisas simples de sua rotina, escritos em seu diário, mostram como é a realidade de quem vive nas periferias. 
"Ninguém deve alimentar a idéia do suicídio, mas hoje em dia, os que vivem até chegar a hora da morte é um herói, porque quem não é forte desanima"
Seus desejos puros e simples tocam nosso coração. Durante a leitura, me peguei chorando diversas vezes. É uma realidade que choca, mas é necessária para termos empatia por aqueles que precisam mais que a gente. Mesmo com todas as dificuldades que a autora passa, seus dias são regados a seus escritos e a leitura dos livros que encontrava no lixo. 
"... Na minha opinião os atacadistas de São Paulo estão se divertindo com o povo igual os Cesar quando torturava os cristãos. Só que o Cesar da atualidade supera o Cesar do passado. Os outros era perseguido pela fé. E nós, pela fome!"
Como um todo, só posso indicar a leitura. Com certeza entrou para a lista de melhores leituras do ano. A edição que li em é em e-book, bem fiel a época em que foi escrito, manteve as anotações da autora e os erros de linguagem. 
O livro é relativamente pequeno, mas a leitura é tensa e duradoura. Mesmo depois de terminada a leitura, tenho certeza que o leitor vai continuar se sentindo impactado. Se você nunca leu nada da autora assim como eu, vale a pena começar por este livro.
"Ontem eu comprei açúcar e bananas. Os meus filhos comeram banana com açúcar, porque não tinha gordura para fazer comida. Pensei no senhor Tomás que suicidou-se. Mas, se os pobres do Brasil resolver suicidar-se porque estão passando fome, não ficaria nenhum vivo."
Convido vcs a participar do Piquenique Literário virtual dia 25/10. A filha da autora, Vera Eunice, está presente para debatermos sobre o livro. É uma oportunidade única. Siga o IG Piquenique Literário e participe! 


Sobre a autora: 




Carolina Maria de Jesus (1914-1977) é considerada uma das primeiras e mais importantes escritoras negras do Brasil. A autora nasceu em Sacramento, Mina Gerais, mas viveu boa parte de sua vida na favela do Canindé, na zona norte de São Paulo. A autora sustentou a si mesma e seus três filhos como catadora de papéis. Em 1958, ela foi descoberta pelo jornalista Audálio Dantas, que publicou o diário de Carolina sob o nome Quarto de Despejo. Com o dinheiro do livro, a autora se mudou da favela. Chegou a publicar outros livros, mas nenhum repetiu o enorme sucesso de sua primeira publicação.



Nenhum comentário:

Postar um comentário